Grey’s Anatomy

julho 27, 2009 por Vignoli Leandro

Matéria publicada originalmente na revista Void, edição #44. Antecipando todo o burburinho em torno da FORMOSA Sasha Grey. Confere aí.

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Última edição do ano, vamos com um assunto light: filmes pornôs. Não sem antes aproveitar que é época de retrospectivas pra fazer uma pequena recordação. Lembram que em Void #37 escrevi que a Playboy não faz mais ensaios relevantes, é só refugo de reality show? Caso não lembrem, tudo bem. Esqueçam também essas revistas. A parada agora são filmes “adultos” (quando eu era piá, já tinha visto vários), e a questão não é sobre sacanagem, é mídia. Daria até uma monografia. “A Celebretização Pornô: O Cinema Adulto Contemporâneo Como Veículo de Penetração Midiática”. Talvez trocando “penetração” por “inserção” pra evitar o trocadilho infame – e óbvio – demais. Eis o cerne. Esses “famosos”, se ligando que tirar a roupa não choca mais nem vovós judias, aderiram ao sexo explícito filmado. Não por gostarem de transar ou grana (isso aí é balela), o real motivo é a fama. A busca ou recuperação. Primeiro foram os veteranos sem mais nada a oferecer, na laia de Rita Cadillac, Leila Lopes, Gretchen e outros. Mas, hoje em dia, isso virou porta de entrada também (sem trocadilho). Vejam a dita sobrinha da citada Gretchen, ilustre desconhecida. Em três meses passou de sobrinha a atriz pornô, e com bela estratégia de marketing. Lançou “Fiz Pornô e Continuo Virgem” por ter feito “apenas” sexo anal (conceitos de pureza a parte, ela está tecnicamente certa), e um outro, onde de fato “deixou de ser virgem”, com a “perda do hímen” frente às câmeras. E isso foi só o começo, muitas outras fake celebrities virão (apostaria alto em alguma “mulher fruta”). Mesmo porque, na gringa, esse processo é antigo e começa até mesmo a reverter, com as estrelas do chamado X-Rated assumindo papéis em Hollywood. A veiculação do sexo começou na forma caseira, em fitas de Pamela Anderson (lendária, não deixe de ver), da magricela Paris Hilton, entre muitos outros (Tom Sizemore até virou ator pornô). Depois em filmes de indies para indies usando sexo de escapismo, como o chatíssimo Nove Canções, e ainda Ken Park, Shortbus e Brown Bunny, onde o diretor Vincent Gallo filmou um boquete explícito da namorada Chlöe Sevigny nele mesmo (espertinho o Gallo, ein?). E se funcionou com amadores, haveria de funcionar com profissionais. Em tempos idos, Boogie Nights apresentava a atriz (pornô) Nina Hartley de coadjuvante. Agora, dois exemplos ainda mais factíveis. Pagando bem…que mal tem? (estréia 09 de janeiro), do diretor Kevin Smith e com o queridinho Seth Rogen no elenco, tem a porn-star Katie Morgan num dos papéis centrais, e a eterna Traci Lords também faz uma ponta. Mais fundo ainda (epa!), o oscarizado Steve Soderbergh chamou Sasha Grey para estrelar The Girlfriend Experience, estréia prevista para 2009. Atriz pornô sensação do ano, ela foi a mais jovem a vencer o prêmio de melhor atriz, no AVN. Aliás, se me permitem a franqueza, é uma tetéia. Antenados a coisa (menos que eu, claro), o LA Times recentemente publicou a reportagem “o cinema pornô e sua influência pra cultura pop”, com fotos ilustrativas bem interessantes. Vasculhe por aí, porque a tua desculpa já está até pronta. Isso não é mais sacanagem. É tendência.

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Na Rolling Stone de Junho/2009 acaba de sair uma grande matéria sobre a a multimídia Grey. Confere no link.  http://www.rollingstone.com.br/edicoes/33/textos/3773

Redação II

julho 27, 2009 por Vignoli Leandro

Coloco nos três posts abaixo as matérias feitas para a disciplina de Redação Jornalística II, na Unisinos, 2009/1.

Todas as demais matérias são para a disciplina de Jornalismo Online I,  que deu origem a esse blog. A matéria do Talese foi, inclusive, parte da prova do Grau B. Abaixo dela, matéria in loco feita durante a Semana de Comunicação. Tudo burocrata e tecnocrata.

abs,,,

Música Pop

julho 8, 2009 por Vignoli Leandro

Matéria para o Grau A. Requentei boa parte do texto que escrevi praquela revista, mas ficou mais completo, mais fontes. E, obviamente, um estilo de texto muito diferente.

No rádio até você cansar

Grupos que tocam em bailão crescem no mercado e atingem um novo público, formado por jovens e universitários.

 Elas têm shows lotados, conquistam cada vez mais espaço na mídia, fazem sucesso, e ganham muito dinheiro. E por mais que não se veja, estão por toda a parte. São as chamadas bandas de bailão, definição vaga, mas, que representa exatamente o que elas fazem: a animação de bailes e festas típicas em cidades do interior. O repertório varia desde a tradicional música alemã, até pagode, axé, country, sertaneja, nativista e músicas orquestradas, que variam de acordo com região ou o estilo de baile. Há anos na estrada, a mudança no perfil dos grupos ocorreu com a melhora estrutural das casas de shows. Se antes elas tocavam só em bares de beira de estrada, e com estrutura precária, hoje a agenda aderiu à profissionalização.

 Com casas noturnas de variados estilos contratando os grupos, um número maior de pessoas passou a freqüentar os bailes, e de perfil classe média-alta. “Muita gente que gostava da música tinha preconceito com os bailões por causa das casas. Quando ela apresenta qualidade e segurança, as pessoas vão”, avalia Ivanir de Oliveira, gerente-administrativa do Scala Club. Desde 2002 em São Leopoldo, há quatro anos o clube abriu uma filial em Porto Alegre. “Buscamos atender o pedido do nosso público da capital, que sentia falta de local mais perto para dançar”, completa. Com estacionamento privado e duas pistas de dança, a casa chega a receber 1.500 pessoas em dias de maior movimento. Segundo Ivanir, a divulgação na mídia também contribuiu para a formação de novo público. Aos domingos, por exemplo, abre espaço pro Clube dos Românticos, em horário diferenciado. “Nesse dia o pessoal mais velho vai embora por volta das onze da noite, que é quando chega a moçada nova a fim de agito”, opina. Além do Scala, o Bar Alternativo, de Novo Hamburgo, voltado para o público jovem, passou a dar espaço às bandas de bailão todas as segundas-feiras. Ainda em NH, o Gigante do Vale aposta nos bailes há quase uma década, e chega a receber 3 mil pessoas aos finais de semana.

 Para acompanhar a mudança, as bandas também tiveram de melhorar. Atualmente, as destacadas trabalham quase como micro-empresa, com diretor comercial, produtor e equipe técnica de sonorização e iluminação. Essa estrutura física, em geral, é da própria banda, que ainda conta com os tradicionais ônibus, o meio de transporte oficial. São aqueles executivos, enormes, de cores berrantes com a estampa do nome do grupo. Neles, músicos e equipe desfrutam do conforto pra cruzar todo o sul do Brasil pra fazer em média 35 apresentações por mês. “Embora pareça impossível, tem dias que passamos por cinco palcos diferentes”, conta Volnei Bianchini, do Brilha Som, de Feliz. Com a agenda lotada em todos os sábados até o final do ano, o grupo recebe um cachê na faixa dos dez mil reais, que pode ser reduzido em caso de baile sem vínculo comercial, como formaturas.

 Outro fator decisivo pra essa fama das bandas de bailão é o profissionalismo dos músicos. Muitos deles trazem influências daquilo que poucos poderiam pensar. O guitarrista da Brilha Som era acostumado a ouvir bandas de rock como Ramones, Nirvana e Sex Pistols na adolescência, quando passou a integrar esse tipo de grupo a convite de um amigo. “Comecei a encarar, e fora do meu habitat natural passei a aprender muito. As influências dos meus gostos musicais acabaram dando um tempero diferente”, conta Volnei. Segundo ele, de lá pra cá muitos casos assim ocorreram, o que gerou uma nova fórmula de se fazer música. Na maioria dos musicais há uma mistura entre os formadores (em geral, músicos mais velhos) a integrantes bem mais novos, os responsáveis, além de outras coisas, pela incorporação de solos de guitarra aos tradicionais naipes de metais. “Essa rapazeada nova que integra as bandas do sul são os grandes responsáveis pela mutação do estilo”, afirma o guitarrista, que com o grupo atingiu a expressiva marca de 62.000 cópias vendidas do álbum “Sou Latino Americano”.

 Esses novos personagens, digamos assim, caracterizam o misto de tradição e moda passageira em que atuam as bandas do estilo. Embora muitas tenham surgido apenas na cola dum fenômeno popular, outras tantas ultrapassaram há tempos a fronteira do oportunismo. A mais famosa desse mercado na atualidade, o Musical JM, de Parobé, já gravou 16 álbuns desde 1992, com os dois mais recentes atingindo a marca de disco de ouro: “Amor Mafioso” e “Busão do JM. E ao se falar de tradição, nada supera Os Atuais, que apesar do nome, existe há mais de 40 anos – algo inédito sem se tratando de qualquer banda brasileira. O primeiro LP foi lançado em 68 e alguns dos integrantes ainda fazem parte do grupo, que chegou a participar do programa da Xuxa durante os anos 80. O livro “Os Atuais – Quarenta Anos de História”, recém lançado, conta um pouco dessa trajetória. Entre outras precursoras do gênero estão a Orquestra Os Montanari, de 71, o Musical Terceira Dimensão, de 76, e a San Marino, fundada em 87 e hoje uma das principais bandas, com DVD gravado ao vivo até na Argentina.

 Embora o sucesso tenha iniciado através do boca-a-boca, ou seja, frequentadores dos bailes e donos de casa noturna que indicavam as bandas de pessoa para pessoa, hoje em dia há a profissionalização também do marketing. Mesmo fora das grandes mídias (principalmente as de televisão), as bandas contam com o apoio de rádios específicas para esse tipo de som, principalmente em cidades do interior. Há, também, revistas segmentadas, como a Superbandas, com tiragem mensal de 3 mil exemplares, e que desde 2001 circula de forma gratuita entre profissionais do meio de todo o país. Além dessa veiculação externa, as próprias bandas entenderam a necessidade de exposição, e usam recursos bem modernos para isso. Os sites oficiais são atualizados com notícias, agenda, músicas disponíveis para download, e até mesmo, vídeos oficiais são divulgados através do Youtube.

 Apesar de todo aparato moderno, porém, o termo “brega” ainda faz parte do contexto das bandas. Com exagero nos vocais, figurino e cartazes de divulgação, não só elas como os fãs sofrem discriminação pelo seu gosto. Aline Freitas, 19, frequenta bailes desde seus treze anos. “Gosto de todos os estilos, escuto numa boa, mas minha preferência é mesmo pelas bandinhas”, sentencia. Estudante de Ciências Contábeis, ela acha que o preconceito acaba se houver interação. “Tenho muitos amigos que adoram rock, mas que foram no bailão e acabaram curtindo. Quem vai sabe que é uma das melhores festas”, acredita Aline, que pertence ao fã-clube do San Marino. Já Silvana Bueno, 36, é atraída pelo jeito simples e cotidiano das letras. “Não é questão de escolaridade como alguns julgam. Estudei na Ulbra e PUC e sigo com minhas raízes”, afirma. “Nos bailes você vê do pedreiro ao médico, gente de todas as idades, e isso é maravilhoso”, completa a pedagoga de Guaíba. Longe de serem unanimidade, as bandas de bailão não tem mesmo essa pretensão. Elas sempre estiveram em alta pro seu público. E, provavelmente, sempre estarão.

Livros Sobre Trilhos

julho 8, 2009 por Vignoli Leandro

Matéria que saiu no Babélia, o jornal semestral da Unisinos. Fiz ela em parceria com dois colegas de aula.

Uma viagem com embarque na leitura

Biblioteca gratuita implantada na rede do metrô oferece grande variedade de livros aos passageiros

 

Um novo espaço destinado à literatura pode ser utilizado pelos usuários da Trensurb, na Estação Mercado. Inaugurada há pouco mais de quatro meses, a biblioteca Livros Sobre Trilhos oferece vastas opções para os leitores do trem. Através de uma parceria entre o Instituto Brasil Leitor, a Empresa de Trens Urbanos de Porto Alegre e Visanet, a biblioteca põe à disposição do público mais de dois mil e quatrocentos livros, gratuitamente. O acervo abriga obras antigas e atuais, de filosofia, história, biografias, além de algumas coleções de Ensino Médio. A instituição ainda oferece para locação títulos em braile e audiobooks – livros em formato de áudio para auxiliar deficientes visuais.   

Segundo a gerente da biblioteca, Carla Casagrande, desde a inauguração, em 15 de dezembro do ano passado, foram realizados mais de 1 mil e oitocentos empréstimos. “Estamos contentes com a procura, há sempre pessoas passando por aqui, descobrindo e se interessando pelos livros”, comenta. Já há um número superior a 500 associados, e as obras mais procuradas pelos leitores são Fortaleza Digital, de Dan Brown, O Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini e A Menina que Roubava Livros, de Markus Zusak.

A inclusão social é outro objetivo do projeto, que regularmente recebe crianças de instituições públicas de ensino, a fim de estimular o gosto pela leitura. Segundo ela, muitas vezes esses estudantes não tem a oportunidade de ter contato com livros. “Queremos promover a inclusão social e estimular o exercício da leitura, trabalhar para reduzir o analfabetismo funcional é um dos nossos lemas”, explica a gerente. 

Entre os cadastrados, setenta por cento são mulheres, como a secretária de um escritório de advocacia, Mariana Nunes. Moradora de Canoas, o primeiro livro que retirou foi A História da Mulher no Brasil. “Acho que ele pode me ajudar a compreender melhor as situações do meu dia-a-dia, com muitos documentos e prazos a cumprir”, comenta. Mariana, que tem uma filha de cinco anos, acredita que o projeto é uma grande oportunidade de incentivar a leitura cada vez mais cedo. “Como costumo ir seguido para Porto Alegre, também nos finais de semana vou começar a trazer minha filha, que gosta muito dos livros de fábula”, diz.

Porém, a Livros Sobre Trilhos não é uma iniciativa isolada. Com o objetivo de estimular a leitura, o projeto foi idealizado pelo Instituto Brasil Leitor (IBL), organização sem fins lucrativos, que mantém outras nove bibliotecas instaladas dentro de redes metroviárias. São cinco em São Paulo (nas estações Paraíso, Tatuapé, Luz, Largo Treze e Santa Cecília), duas no Rio de Janeiro (estações Central e Siqueira Campos), uma em Recife e, desde dezembro, na capital gaúcha.

A mais antiga fica dentro da Estação Paraíso do Metrô, em São Paulo. Aberta em 2004, reúne hoje cerca de 16.700 sócios e mais de 148 mil empréstimos, com um acervo que chega a mais de 17 mil títulos. O diretor geral do IBL, William Nacked, acredita que o sucesso da iniciativa prova que o brasileiro quer e gosta de ler. “O que faltava para incentivar a leitura era facilitar o acesso aos livros nesse mundo atual onde as pessoas não têm tempo”, afirma. Até o final do ano, o projeto deve ser implantado também em Belo Horizonte, além do Instituto possuir um convênio para a instalação de outras cinco bibliotecas no metrô paulistano.

Uma das preocupações iniciais, segundo o diretor, era de que as pessoas não devolvessem os livros. Porém, em cinco anos de execução, apenas 2,1% dos associados da capital paulista não devolveram os livros emprestados, e, no Rio, o índice é ainda mais baixo. “Além de o brasileiro gostar de ler, esse projeto também derrubou o mito de que ele não devolve aquilo que pega emprestado”, analisa. Mesmo sem fins lucrativos, o Instituto Brasil Leitor conta com o auxílio da iniciativa privada para funcionar. Em Porto Alegre, a Livros Sobre Trilhos tem patrocínio da Visanet, que é responsável pela compra dos livros, todos novos. “Ainda assim, pode haver um índice de, no máximo, 3% de livros extraviados por mês para que o projeto dê certo”, completa Nacked.

A biblioteca está localizada na plataforma de embarque da Estação Mercado da Trensurb, e funciona de segunda a sexta, das 11h às 20h. Para se associar, basta apresentar documentos de identidade, CPF e comprovante de endereço (cópias e originais), além de uma foto 3×4. A carteira de sócio pode ser retirada no dia seguinte, e o tempo de permanência com o livro é de dez dias, com direito a três renovações.

Perfil

julho 8, 2009 por Vignoli Leandro

Matéria no estilo perfil, para o Grau B.

Uma babá quase perfeita

Editora do caderno sobre crianças em ZH acredita muito naquilo que faz

Ela trabalha em Zero Hora há dez anos. A jornalista Anelise Zanoni, 29 anos, atualmente é a editora do caderno Meu Filho, que sai todas as segundas-feiras. Mas, até chegar a esta função, ela teve um grande percurso dentro do jornal. Na empresa desde quando cursava seu quinto semestre de jornalismo, na PUC, ela trabalhou nas editorias Internacional e Geral (como repórter), e nos cadernos Vida, Vestibular, Donna, até, finalmente, editar o atual caderno.

Experiência

 Anelise considera que, como repórter, foi onde teve sua maior experiência, na editoria de Geral. Nesse período, a exigência da velocidade das informações, segundo ela, atrapalha um pouco a perfeição duma matéria. A sua grande cobertura nesse período foi a do Ciclone Catarina, ocorrido no litoral de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, em 2004. Fato pouco creditado pelos institutos de meteorologia da época, a jornalista foi até a cidade de Torres apenas para uma verificação de rotina, e acabou sendo a principal repórter de ZH in loco. “Nessa hora cai um pouco o mito da imparcialidade do jornalista. Nesses momentos de desastre, primeiro você pensa em si, depois no jornal”, diz. Ainda assim, ela acredita que não tem o perfil para trabalhar com as hard-news, principalmente, pelo pouco tempo para se aprofundar nas matérias. Ao contrário, na redação do Segundo Caderno (onde fica o Meu Filho), o clima é mais parecido com o de uma revista, com matérias mais elaboradas, onde pode pensar a pauta, correr atrás das fontes, e escrever ao longo da semana.

Fora do país

Em 2006, ela teve uma experiência de setes meses na Irlanda. Lá, além de estudar o inglês, Anelise teve de se virar para custear a sua permanência. Para isso, trabalhou até fazendo sanduíches na rede de lanchonetes Subway. Porém, no período conseguiu um estágio no jornal Sunday Independent, que só lhe agregou como jornalista. Entre as diferenças para as redações daqui se destacam o silêncio absoluto no ambiente, as pessoas mais velhas na redação, além do jornal permitir muito texto em primeira pessoa, quase como um jornalismo especializado de revista. Para uma de suas matérias, Anelise foi convidada a cobrir um evento no gelo polar da Noruega, onde teve uma das piores experiências pessoais, após uma forte tempestade em alto mar.

Meu Filho

De volta da viagem, assumiu o caderno Donna, e desde outubro, é a editora e única responsável pelo Meu Filho. Como pauta, o caderno busca notícias sobre os temas atuais e que estão no cotidiano sobre pedagogia e saúde da criança. Muitas delas são também feitas através de sugestões de leitores. Anelise acredita muito no jornalismo especializado, que é importante saber exatamente do que está falando. “O importante é se interessar e, principalmente, gostar, daquilo que você está escrevendo”, alerta a editora, que ainda não tem filhos. “Não ser mãe e ter de falar para outras mães me dá ainda mais responsabilidade de estudar e me aprofundar nos assuntos”, completa. Sua rotina na redação começa desde a semana anterior da publicação do caderno. Em média, todas as notas e matérias ficam prontas até quinta-feira, já que no dia seguinte tem de estar tudo concluído pronto para impressão do jornal. Além de pensar diariamente nas pautas, Anelise ainda tem de alimentar o blog do caderno, hospedado dentro do portal ClicRBS (em geral, os post’s são feitos em um mesmo dia, com a publicação devidamente programada para semana). Empatia com os leitores Um dos pontos negativos que Anelise vê em escrever num caderno como o dela são os poucos elogios e as muitas reclamações. Como exemplo, citou uma matéria onde explicava as diferenças entre creches e as escolas infantis, onde recebeu muitos e-mails de contrariedade, principalmente dos donos de creches. Ainda assim, ela afirma que é preciso aceitar a crítica, analisar a que tem relevância, e claro, sempre responder de forma educada. Mesmo por que, segundo ela, muitas são as pautas sugeridas através desses leitores, a maioria vindo de alguma forma de desespero. “A matéria que fiz de uma mãe que não conseguia largar o filho, mesmo depois da licença maternidade, foi uma das que mais repercutiu. Muita gente escreveu agradecendo pelas dicas”, conta.

Daqui para o futuro

Atualmente, junto ao trabalho no jornal, Anelise Zanoni ainda faz doutorado na UFRGS, além de dividir o seu tempo com aulas de francês e natação. Uma de suas metas no futuro é entrar para o meio acadêmico. “Uma das coisas que sempre gostei foi passar adiante aquilo que aprendo. Sem dúvida que ser professora é algo que me interessa bastante”, afirma. Como hobby preferido, ela gosta de ver filmes, viajar e sair pra jantar com seu namorado, Pedro, advogado com quem ela mora. Embora editora dum caderno chamado Meu Filho, a jornalista não pretende ter filho antes de concluir o seu doutorado. Entre as viagens que mais gostou de fazer, destaca uma temporada fora de época em Bariloche, e considera a Patagônia como aquela dos seus sonhos.

Literário jornalismo

junho 23, 2009 por Vignoli Leandro

gay_talese offEle é jornalista, mas, definitivamente, não é online. O americano Gay Talese, que vem ao Brasil para  Festa Literária Internacional de Paraty, é um dos pais do chamado new journalism, gênero que mistura narrativa literária com técnica jornalística. Autor de “O Reino e o Poder”, antológica biografia do jornal New York Times, Talese vê com desconfiança o modelo adotado pelo jornal em oferecer o seu conteúdo via web. “A nova geração que assumiu o jornal nos anos 90, no limiar da revolução tecnológica, amadureceu sob o impacto da tecnologia e fez um erro calculado de oferecer notícias de graça”, avalia. Segundo o escritor, isso desvaloriza o serviço jornalístico de um grande jornal, onde o custo de se obter a notícia deve ser a prioridade.  Para ele, não há alternativa no mundo para este tipo de trabalho. “Não se resolve com bloggers inventando histórias nos seus quartos”, sentencia.

Ainda sobre os efeitos da internet no jornalismo, Talese acredita não mais ser possível escrever artigos gigantes em revistas, como fazia na Esquire. Ainda assim, seu problema não é com o formato, e confessa que ocasionalmente consulta o Google para respostas objetivas, embora isso não ajude muito no seu trabalho como escritor. “Eu sou o historiador de pessoas que não têm mulher-do-proximo1 história registrada em público. Então, se eu fizesse uma busca no Google sobre os personagens reais de A Mulher do Próximo, eles apareceriam associados ao meu nome”, argumenta o escritor.

Dono de uma maneira de escrever voraz, utilizou-se de experiências pessoais para retratar a história de “A Mulher do Próximo”, sobre a revolução sexual vivida nos Estados Unidos dos anos 60. Casado e com dois filhos, foi muito criticado e sua mulher tratada na imprensa como passiva. “Queria saber quem eram os novos pecadores. Eram diferentes de mim? Então, tive que me associar aos pecadores. Se você quer escrever sobre eles, tem que acompanhá-los ao inferno”,  fala sem papas da língua ou constrangimento. Junto de sua esposa há 50 anos, atualmente escreve as memórias de seu casamento com Nan Talese. “Achei que eu devia escrever porque saberia mais do que um biógrafo depois que estivermos mortos”, ironiza o autor, um dos mais célebres biógrafos/entrevistadores ainda vivo.

Gay talese com sua esposa, Nan (direita) e a filha, Pamela. 1992

Gay talese com sua esposa, Nan (direita) e a filha, Pamela. 1992

Prolixo e com respostas  na ponta da língua, o escritor ainda falou sobre o governo Obama, que acredita ter como missão entender e ser entendido. Sobre o papel dos jornais no dia de hoje e a sua importância, Talese resumiu de maneira emblemática a necessidade de ainda se comprar um jornal. “No vida de escritorprédio de qualquer redação de um jornal respeitável, a qualquer momento, há menos mentirosos por metro quadrado do que em qualquer outro prédio”. Gay Talese vem ao Brasil para a 7ª Flip, entre 1º e 5 de julho. No Brasil, acabou de sair pela Companhia das Letras seu mais recente livro, “Vida de Escritor”. Mais do que uma dica, essa é uma leitura obrigatória.

>>> Talese responde por que precisamos de jornais (com legendas)

>>> Entrevista para o jornal Folha de SP, sobre sua vinda ao Flip

>>> Livros de Talese a disposição na Biblioteca Unisinos

No passo do elefantinho

junho 2, 2009 por Vignoli Leandro

Começou hoje, no campus da Unisinos, a II Semana de Comunicação, que tem como mascote esse ano um elefante, que representa a união de peso entre os cursos da comunicação social da Universidade. Na primeira atividade programada para o Auditório Central, uma palestra sobre um assunto que causa calafrios entre alunos do curso: pesquisas.  A convidada da noite foi a Gerente Executiva de Pesquisa do Grupo RBS, Elaine Lösch, que apresentou em cerca de cinqüenta minutos o tema “Pesquisa e Comunicação: Inseparáveis”.

Elaine falou sobre a necessidade das grandes empresas em trabalhar com pesquisas de mídia, sobre as metodologias aplicadas e, também, sobre a forma com que as pesquisas são empregadas pelo Grupo RBS. Ao longo da PICT1039palestra, inclusive, pôde-se fazer um paralelo entre as pesquisas aplicativas até mesmo com a história da internet. Num primeiro instante, onde as pesquisas eram feitas de maneira domiciliar e em fluxo (ou seja, pelas ruas) e sem qualquer interferência do seu público, podemos equiparar a era do 1.0 na internet. Porém, hoje, além de todo um processo feito através de empresas contratadas do ramo, como Ipsos, Ibope, entre outras, há todo um mecanismo conectado a web, em que as pesquisas se utilizam das redes sociais, como Facebook, Orkut, Twitter, e onde o público interfere, sim, no resultado quase instantaneamente. Nisso, podemos ver as semelhanças com a chamada web.2.0.

Mercado em expansão

Durante a apresentação, feita com o auxílio do PowerPoint, Elaine argumentou que as pesquisas são um mercado em franca expansão. No Brasil, são mais de 2oo empresas afiliadas à ABEP – Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa -, e, no mundo, esse mercado movimento cerca de 20 bilhões de dólares todo ano. Segundo ela, há uma enorme carência de especialistas na área, pela inexistência de um curso formal de pesquisadores. A maior parte dos profissionais que atuam vêm das áreas de Sociologia – como a própria Elaine -, Administração de Empresas e Publicidade. 

Alunos de Jornalismo, Publicidade e Propaganda e Relações Públicas

Alunos de Jornalismo, Publicidade e Propaganda e Relações Públicas

MMC – Mundo Mágico Corpoorativo

De acordo com Elaine, as metologias aplicadas variam de acordo com prazo, interesse específico, mas, principalmente, orçamento da empresa. “As empresas inverteram as pirâmides de interesse. Hoje em dia só é feito pesquisa se há verba disponível’, disse. Em geral, 95% das pesquisas realizadas são sobre mídia, que medem a audiência, o comportamento do consumidor, e outros fatores. Mas, além delas, também são trabalhadas pesquisas de opinião (mais na área jornalística) e de mercado (mais na área comercial da empresa). Como exemplo prático, ela demonstrou a estratégia para a rádio Cidade FM retomar a primeira posição na audiência, perdido em julho de 2008 para a Eldorado FM. Com base justamente nas pesquisas foi constatado uma ambivalência de público com a Metrô, rádio também pertencente ao Grupo RBS. A solução foi descontinuar essa estação, com a Cidade gradativamente assumindo seu playlist. Hoje, ela é líder absoluta no share das FM’s.

Na escola dos irmãos Warchowski

Antes de terminar, Elaine Lösch ainda apresentou em primeira mão fora do Grupo RBS o Projeto Matrix,  elaborado para utilização dos grupos de pesquisas da empresa.  No futuro, a ideia é não mais necessitar a contratação de empresas privadas. Atualmente, o Grupo RBS encomenda pesquisas em época eleitoral, por exemplo. Ao final da apresentação, a palestrante respondeu perguntas dos alunos, em sua grande maioria do curso de Publicidade e Propaganda.

>>> Confira mais um vídeo da palestra.

>>> Saiba mais sobre o programa da Semana de Comunicação.

>>> Entrevista com José Mitchell, o palestrante de hoje.

Para os 50 anos da TV – Pauta

maio 12, 2009 por Vignoli Leandro

Para a pauta, a ideia é fazer texto inteiro, com a cobertura da palestra.  Inclusão de fotos dos palestrantes e — possivelmente — de algum vídeo com assunto de relevância (conforme tempo disponível no deadline, o vídeo poderá entrar também na forma de update do post, algumas horas depois). Texto com elementos de caráter multilinear, o mais simples possível sobre o evento, embora com links multimídia. Uso de interatividade através dos comentários, alcançado através de elemento provocativo no texto.

Possível uso de dados sobre cronologia e passo-a-passo sobre a história da tv deverão ser incluídos através de textos PRÉ-PRODUZIDOS. Isso rolará somente caso o conteúdo da palestra não for totalmente interessante.

Who wants the watchmen?

abril 13, 2009 por Vignoli Leandro

Desde livros como Laranja Mecânica e 1984 (ambos com versões para o cinema) é que percebe-se que elementos da vida pós-moderna dão cada vez mais a ideia de falta de privacidade, e em algum ponto, de eterna vigilância. Mas, até onde estas ferramentas tornam a vida mais segura ou são meros artifícios para a invasão de privacidade e controle? Para uma resposta simples, diria que é um grande ônus. Agora, para responder de maneira mais específica, em detrimento de escolher uma dessas formas pós-modernas, não consigo deixar de fazer a distinção entre elas, em três “categorias”.

Ônus concedido ou consensual:

Street-art do artista inglÊs Robert Banksy

Street-art do artista inglês Robert Banksy

as câmeras de vigilância representam a segurança. Nos supermercados, nos condomínios, nas estradas, no elevador, no meio da rua, elas são o preço a ser pago para sentir-se seguro. Mesmo que ela esteja ali, e automaticamente saiba o que você está fazendo, ela representa um controle indireto, caso você não vá fazer nada de errado. Ou seja, é incômodo ser visto comprando algo íntimo numa loja, por exemplo, mas um tanto pior ver aumentada exponencialmente a chance de assalto a esta mesma loja pela falta da câmera. Ou não?

Ônus não-concedido:

MSN: o queridinho das mensagens intantâneas e da vigilância.

MSN: o queridinho das mensagens intantâneas e da vigilância.

a vigilância do e-mail, páginas visitadas, telefone e MSN em empresas é a invasão da privacidade e controle. Mesmo que a premissa possa ser a mesma (o do “já que você não vai fazer nada de errado, tudo bem”), ela representa um controle direto a você, não ao bem comum duma sociedade. Numa câmera de vigilância há a ideia de proteger você de alguém que faça algo errado. No controle de e-mails, há a noção de que você é o vigiado se fizer algo errado. Mesmo num ambiente de trabalho, existe uma série de coisas de inerência particular, não à empresa. Caso haja a premissa da desconfiança, o melhor seria nem autorizar o uso desses recursos.

Ônus auto-imposto:

Uma das muitas indiscrições no Orkut

Uma das muitas indiscrições no Orkut

é o caso de perfis em redes sociais, ou mesmo, telefone celular, onde a própria pessoa tem o controle do que deseja divulgar. É onde a segurança e a falta de privacidade se confundem. A pessoa odeia câmera de vigilância e que o seu chefe controle o MSN, mas acha natural expor boa parte da sua vida particular num ambiente extremamente público como a internet, pelo simples fato de que ela decidiu.

Símbolo e valores e a semiótica

março 31, 2009 por Vignoli Leandro

Vou tentar analisar aqui o valor simbólico de um determinado objeto. No caso, um bastante peculiar: a galocha. A galocha, aquela bota de borracha associada por anos a profissionais da limpeza, em determinado ponto virou moda. E moda, no sentido mais literal do termo, sendo um grande status fashion no circuito Nova Iorque, Londres e Paris. Embora se saiba que este circuito não seja exatamente a extensão daquilo usado no cotidiano , de alguma maneira com as galochas o processo aconteceu. Usadas há bastante tempo como “peça de vestuário” nos festivais de música do verão europeu – principalmente os ingleses, onde o clima é chuvoso e em geral os “campsites” quase sempre permaneciam embarrados -, aos poucos a bota de borracha passou pras ruas até do – pasmem – Brasil.  Ou seja, seu valor simbólico passou a ser dum adereço estético, mais do que o utensílio utilitário de antes. Tanto que boa parte delas são vendidas por meio de grifes caríssimas, e com estampas das mais variadas. Mas, pra mim, seu significado jamais será disassociado a um dia chuvoso, ou mesmo, dum barral. E por mais chique e cara que seja seu valor real, sempre terei no meu inconsciente que não passa dum artigo produzido provavelmente numa cidade qualquer  do interior do Rio Grande do Sul. De qualque maneira, aos interessados, linko aqui uma vasta coleção dos modelos de galocha mais hiper-ultra-cool do mundo.

Pisar no barro é uma decisão de estilo.

Pisar no barro é uma decisão de estilo.