Matéria para o Grau A. Requentei boa parte do texto que escrevi praquela revista, mas ficou mais completo, mais fontes. E, obviamente, um estilo de texto muito diferente.
No rádio até você cansar
Grupos que tocam em bailão crescem no mercado e atingem um novo público, formado por jovens e universitários.
Elas têm shows lotados, conquistam cada vez mais espaço na mídia, fazem sucesso, e ganham muito dinheiro. E por mais que não se veja, estão por toda a parte. São as chamadas bandas de bailão, definição vaga, mas, que representa exatamente o que elas fazem: a animação de bailes e festas típicas em cidades do interior. O repertório varia desde a tradicional música alemã, até pagode, axé, country, sertaneja, nativista e músicas orquestradas, que variam de acordo com região ou o estilo de baile. Há anos na estrada, a mudança no perfil dos grupos ocorreu com a melhora estrutural das casas de shows. Se antes elas tocavam só em bares de beira de estrada, e com estrutura precária, hoje a agenda aderiu à profissionalização.
Com casas noturnas de variados estilos contratando os grupos, um número maior de pessoas passou a freqüentar os bailes, e de perfil classe média-alta. “Muita gente que gostava da música tinha preconceito com os bailões por causa das casas. Quando ela apresenta qualidade e segurança, as pessoas vão”, avalia Ivanir de Oliveira, gerente-administrativa do Scala Club. Desde 2002 em São Leopoldo, há quatro anos o clube abriu uma filial em Porto Alegre. “Buscamos atender o pedido do nosso público da capital, que sentia falta de local mais perto para dançar”, completa. Com estacionamento privado e duas pistas de dança, a casa chega a receber 1.500 pessoas em dias de maior movimento. Segundo Ivanir, a divulgação na mídia também contribuiu para a formação de novo público. Aos domingos, por exemplo, abre espaço pro Clube dos Românticos, em horário diferenciado. “Nesse dia o pessoal mais velho vai embora por volta das onze da noite, que é quando chega a moçada nova a fim de agito”, opina. Além do Scala, o Bar Alternativo, de Novo Hamburgo, voltado para o público jovem, passou a dar espaço às bandas de bailão todas as segundas-feiras. Ainda em NH, o Gigante do Vale aposta nos bailes há quase uma década, e chega a receber 3 mil pessoas aos finais de semana.
Para acompanhar a mudança, as bandas também tiveram de melhorar. Atualmente, as destacadas trabalham quase como micro-empresa, com diretor comercial, produtor e equipe técnica de sonorização e iluminação. Essa estrutura física, em geral, é da própria banda, que ainda conta com os tradicionais ônibus, o meio de transporte oficial. São aqueles executivos, enormes, de cores berrantes com a estampa do nome do grupo. Neles, músicos e equipe desfrutam do conforto pra cruzar todo o sul do Brasil pra fazer em média 35 apresentações por mês. “Embora pareça impossível, tem dias que passamos por cinco palcos diferentes”, conta Volnei Bianchini, do Brilha Som, de Feliz. Com a agenda lotada em todos os sábados até o final do ano, o grupo recebe um cachê na faixa dos dez mil reais, que pode ser reduzido em caso de baile sem vínculo comercial, como formaturas.
Outro fator decisivo pra essa fama das bandas de bailão é o profissionalismo dos músicos. Muitos deles trazem influências daquilo que poucos poderiam pensar. O guitarrista da Brilha Som era acostumado a ouvir bandas de rock como Ramones, Nirvana e Sex Pistols na adolescência, quando passou a integrar esse tipo de grupo a convite de um amigo. “Comecei a encarar, e fora do meu habitat natural passei a aprender muito. As influências dos meus gostos musicais acabaram dando um tempero diferente”, conta Volnei. Segundo ele, de lá pra cá muitos casos assim ocorreram, o que gerou uma nova fórmula de se fazer música. Na maioria dos musicais há uma mistura entre os formadores (em geral, músicos mais velhos) a integrantes bem mais novos, os responsáveis, além de outras coisas, pela incorporação de solos de guitarra aos tradicionais naipes de metais. “Essa rapazeada nova que integra as bandas do sul são os grandes responsáveis pela mutação do estilo”, afirma o guitarrista, que com o grupo atingiu a expressiva marca de 62.000 cópias vendidas do álbum “Sou Latino Americano”.
Esses novos personagens, digamos assim, caracterizam o misto de tradição e moda passageira em que atuam as bandas do estilo. Embora muitas tenham surgido apenas na cola dum fenômeno popular, outras tantas ultrapassaram há tempos a fronteira do oportunismo. A mais famosa desse mercado na atualidade, o Musical JM, de Parobé, já gravou 16 álbuns desde 1992, com os dois mais recentes atingindo a marca de disco de ouro: “Amor Mafioso” e “Busão do JM”. E ao se falar de tradição, nada supera Os Atuais, que apesar do nome, existe há mais de 40 anos – algo inédito sem se tratando de qualquer banda brasileira. O primeiro LP foi lançado em 68 e alguns dos integrantes ainda fazem parte do grupo, que chegou a participar do programa da Xuxa durante os anos 80. O livro “Os Atuais – Quarenta Anos de História”, recém lançado, conta um pouco dessa trajetória. Entre outras precursoras do gênero estão a Orquestra Os Montanari, de 71, o Musical Terceira Dimensão, de 76, e a San Marino, fundada em 87 e hoje uma das principais bandas, com DVD gravado ao vivo até na Argentina.
Embora o sucesso tenha iniciado através do boca-a-boca, ou seja, frequentadores dos bailes e donos de casa noturna que indicavam as bandas de pessoa para pessoa, hoje em dia há a profissionalização também do marketing. Mesmo fora das grandes mídias (principalmente as de televisão), as bandas contam com o apoio de rádios específicas para esse tipo de som, principalmente em cidades do interior. Há, também, revistas segmentadas, como a Superbandas, com tiragem mensal de 3 mil exemplares, e que desde 2001 circula de forma gratuita entre profissionais do meio de todo o país. Além dessa veiculação externa, as próprias bandas entenderam a necessidade de exposição, e usam recursos bem modernos para isso. Os sites oficiais são atualizados com notícias, agenda, músicas disponíveis para download, e até mesmo, vídeos oficiais são divulgados através do Youtube.
Apesar de todo aparato moderno, porém, o termo “brega” ainda faz parte do contexto das bandas. Com exagero nos vocais, figurino e cartazes de divulgação, não só elas como os fãs sofrem discriminação pelo seu gosto. Aline Freitas, 19, frequenta bailes desde seus treze anos. “Gosto de todos os estilos, escuto numa boa, mas minha preferência é mesmo pelas bandinhas”, sentencia. Estudante de Ciências Contábeis, ela acha que o preconceito acaba se houver interação. “Tenho muitos amigos que adoram rock, mas que foram no bailão e acabaram curtindo. Quem vai sabe que é uma das melhores festas”, acredita Aline, que pertence ao fã-clube do San Marino. Já Silvana Bueno, 36, é atraída pelo jeito simples e cotidiano das letras. “Não é questão de escolaridade como alguns julgam. Estudei na Ulbra e PUC e sigo com minhas raízes”, afirma. “Nos bailes você vê do pedreiro ao médico, gente de todas as idades, e isso é maravilhoso”, completa a pedagoga de Guaíba. Longe de serem unanimidade, as bandas de bailão não tem mesmo essa pretensão. Elas sempre estiveram em alta pro seu público. E, provavelmente, sempre estarão.